Não aceito ser deixada pra depois. Eu sou agora, eu sou
imediato. Eu sou muito. O meu excesso transborda, o meu excesso – como o
esperado - sobra. Cansamos, caio em redundâncias,
tropeço em pleonasmos e prolixidades cíclicas. Travo longas batalhas comigo
mesma, tentando ser menos eu pra ser mais sua. Mas sendo menos eu você deixa de
me querer tanto e sendo só o que sou te canso, sobro, te machuco, te faço
sofrer, e sentindo tanto como sinto, sua dor é sentida por mim como uma amputação.
Percebe como me sinto agora? Amor é quando você se sente disposto a não ser o
que me basta pra ser o que te falta? Ou ao contrário? Porque linda, cada lágrima
minha é testemunha da minha disposição a me rasgar, me cortar, me destruir pra
ser num molde exato do que te bastaria, do que te faltaria e portanto comigo
bastaria. Amor é quando você se sente sempre mais burro? Porque todas as
palavras que eu vomito em longos textos contradizem as minhas atitudes, minhas crenças,
minhas teóricas verdades eternas. Se for por amor, Amor maiúsculo, eu aceito
ser burra e aceito fechar os olhos e aceito só viver o mistério do buraco negro
que é o sentido de viver. Penso que por vezes a gente deixa as duvidas,
incertezas, inseguranças e o medo – o que paralisa – ocupar o espaço que
deveria ser só pelo amor. Porque ele aceita ser humilhado, agredido,
enganado. O amor é como deus: quando nós – limitados, burros, humanos idiotas
que só usam dez por cento de sua cabeça animal – ficamos bravos e nos fazemos
de descrentes e céticos ele nos olha, levanta uma sobrancelha e acende um
cachimbo com um fumo bem cheiroso. Ele nos olha, e amigo, ele nos enxerga!e aí solta uma risada irônica que só diz uma coisa: eu não vou me cansar de você,
portanto você voltará pra mim mais cedo ou mais tarde. E a gente volta. Mas
precisa se doar, se dar, se permitir. Tudo que encontro de
nós nesse mundo e no resto de tudo me faz acreditar que vai dá certo e aí eu
olho pra nós e vejo o quanto a gente se esforça pra se destruir, pra quebrar as
pontes que nos ligam. Eu sinto a falta não do amor, longe disso, eu sinto falta
de te sentir e aí fazer sentido pra mim. Tudo fazer sentido. Sentir o sentido.
Sentindo o sentir. Mas você parte e me parte então eu tento encontrar os
lugares errados, porque o certo é óbvio e, agora, impossível. Vai ser assim pra
sempre? Eu vou ter que definitivamente me acostumar com o fim? Não sei se é
preciso mais coragem pra ir ou pra ficar. Acho que pra ficar, pra voltar. Me sinto
covarde e preguiçosa e eu sempre odiei me sentir sendo levada, controlada,
dependente. Hoje penso que isso é autoilusão, já que amor é o único estado
permanente e o mais vital das condições. O único. Ando
devagar nesse mundo que anda com pressa e que na espera desespera indo no
errado pensando ser o certo. Ando me sentindo peça única que não encaixa
em lugar algum. Porque se você decidiu que eu não posso me ajeitar e me
costurar e me atrair e me compartir em você, pra você então eu não posso mais
fazer isso com ninguém, em nenhum lugar. O desamor faz a gente se sentir o
convidado arrumado demais, arrumado de menos, a criança ganhando presente
repetido, o almoço de domingo sem sobremesa. Por que a gente não pode ser
junto? Eu queria tanto que minha saudade te doesse, que meu amor te amasse, que
minhas cartas te convencessem. Mas amor não pode ser implorado e isso é uma pena...Amor
é fé. Você não é mais ausente, o nós virou vácuo. Alguma hora vai acontecer uma explosão?
A explosão construtiva? Um big ban? Vai explodir vida em nós? Você percebe o
quanto sou certeza? Você percebe que em meio a qualquer dúvida absurda que eu
tenha, que eu seja, que eu viva, você é minha única certeza? O Amor é a minha única
certeza? O nosso nós – ainda que essa primeira pessoa do plural, talvez, nunca
mais exista - é minha única garantia de permanência. E agora? Que o amor é tudo e nós somos Nada? E
agora? Você percebe que só o sentir me faz parar de ficar desistindo de tudo? Porque
eu só não desisto do que eu sei que somos, você é minha gravidade, o que me
prende aqui. Um café, uma chuva e um carinho seu. É só isso. É só tudo isso. É
tudo isso. Enquanto eu vou chamando isso de tudo e você vai indo embora
chamando o tudo, de isso...
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