Você dormiu com o cabelo molhado e o seu cheiro ainda está
aqui no meu travesseiro. Lembro que eu achava que o que fosse passageiro
deveria ficar apenas em colchas e edredons, deitar nos meus lençóis era coisa
séria. Isso faz muito tempo e nesse período eu me enganei e me encontrei e
voltei a me enganar, porque o único encontro tinha sido com você mesmo e não
havia destino que pudesse mudar isso. Ilusão minha. O tempo é sempre o senhor
de todas as coisas. Me sinto confortável hoje e é engraçado porque eu já fui
movida a muita insatisfação, a muito erro, a muitos tropeços, a muitos remédios,
a muitas lágrimas e cortes – que tento disfarçar com o tanto de pulseira que eu
uso e que outras tentaram me fazer superar com o tanto de beijo em cima deles. Me
emociona o conforto que eu sinto no vazio. Não o de meses atrás: o vazio da
solidão, da saudade gritada, do amor sangrando. O nada de hoje me move, me
impulsiona, me arrasta até a praia, me agrada com beijos de sol no final da
tarde, me presenteia com ventinho de maresia quente e bubuia geladinha do verão.
O vazio me lembra que o amor é cais, é porto, é segurança, é fortaleza. Se há
um jeito de amar certo talvez seja esse. Eu vejo em você o que eu era e isso é
o que mais me desequilibra, porque seu amor me mudou pro melhor mas o meu te
mudou pro meu passado. Você disse que me viraria as costas e me deixaria –
ainda mais - sozinha e eu sou medrosa e você tem sido cruel, então antes de ser
deixada eu deixei. Às vezes ainda choro sabe, sinto sua falta e escrevo poesias
melancólicas. Às vezes não piso na areia, não entro no mar; tenho medo de
afogar, de derreter, de abaixar na água e o silêncio do fundo e a pressão dos pulmões
me seduzir. Às vezes ainda saio pra andar de bicicleta ouvindo umas canções de
apartamento que me fazem lembrar nós juntas e ainda me dói o fato de não sermos
mais “nós”. Quem me vê, me vê bem e acho que é isso mesmo que tem acontecido. Acho
que me acostumei com o sozinho e isso tenha virado o Nada transformador em mim. Acho que meus calos
me fizeram forte, me fizeram andar descalça em chão de porcelanato sem medo
porque no fundo lembro de quando andei em chão com bicho de pé e me curei. Acho
que minha dor de amor foi isso: um bicho de pé que não me adoeceu. Cocei,
sangrei um pouco, deu febre e um pouco de dor de cabeça, passei dias sem
dormir, noites chorando muito mas sarei. Desde que você deitou na minha fronha
de cabelos molhados até hoje muita coisa mudou: hoje tenho sempre flores no
quarto, porque tento enfeitar a vida pra ela não esquecer de me enfeitar. Hoje
tomo mais cuidado com quem pisa no meu tapete, bebe das minhas alquimias dos
sucos, entra na minha casa, toca os meus livros, ouve minhas musicas,
experimenta dos meus filmes. Hoje não bebo mais, nenhum álcool, nada!aprendi que
a gente bebe pra esquecer uma dor muita forte mas quando embriagado,dói muito
mais. A saudade e a falta que o certo faz em meio a tanto errado grita muito
mais. Hoje me sinto bonita sem tanta maquiagem e entendi que o melhor pra minha
pele são: cremes franceses, suco de pepino, sol da manhã e felicidade. Hoje não
sinto mais vergonha da minha cor e não tenho pretensões de chegar a sua. Clarear
os cabelos, cozinhar cada vez melhor e me dedicar a minhas afilhadas ainda é
uma obsessão; tento que o mundo sempre me veja com os melhores olhos - os que
você me olhava - então ainda mantenho em mim o que você mais gostava. Tatuei
uma representação nossa na costela e tirei todos os brincos. Você me mudou, seu
amor me construiu, sua partida me destruiu e o seu não regresso me obrigou a
seguir. Obrigada então por ter sido tão fraca e ter desistido de mim, de nós. Hoje
sorrio leve, escrevo feliz, ando mais graciosa e me deito ao sol. As pessoas
acham que me esforcei por mim, talvez tenha sido porque essa paz de alma que eu
busquei em horas de saudação ao Sol e dias de meditação hoje me alcançou e é indizível
o quanto sou grata, mas no fundo de mim a voz mais profunda, a que fala mais
alto dentro da consciência ainda me diz que, tudo de melhor que eu desejo pra
mim no fundo é pra que você me veja melhor e assim se sinta atraída pelo meu
novo estilo de vida e devolva o seu cheiro de cabelo molhado ao meu travesseiro.
Brigo com essa voz e custo a acreditar que ela seja mesmo minha, porque me
sinto compartilhando tão bem não sendo mais tão sua. Talvez eu não saiba mesmo
o que é melhor pra mim, afinal foi a sua ameaça de me deixar e o seu de fato
esquecimento, que quebrou minhas antigas pernas e me ensinou a andar diferente.
Talvez só, como sempre, você e o Tempo que saibam o que é melhor pra mim. Agradeço
aos dois.
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