Ei, me concerta. Me devolve pra mim! Não da mais pra viver
assim, às vezes acho que não vou conseguir nem respirar ou que o ar vai ficar
pra sempre preso em meus pulmões. Foi você que me causou isso. É sua culpa! Você
me ampliou pra menos, você me fechou numa embalagem pintada de horizonte, mas
que media pouquíssimos centímetros.
Olha, eu sei que eu merecia sofrer por você alguma hora e eu
sei que você está gostando de ver meus joelhos ralados de tanto tropeçar e meus
olhos vermelhos de tanto chorar pelos machucados que você vem me causando. Eu
sei, tem sido bem divertido de se ver. Mas isso precisa acabar! Não são só feridas,
é como se eu tivesse sofrido um acidente muito grave e logo quando to me
recuperando eu o sofro de novo, igual ou pior. Você me escureceu e eu sempre tive medo de escuro.
Diziam que quando tudo ficava muito ruim você apareceria, como vagalumes, e
iluminaria tudo, resolveria tudo. E aí? É minha culpa? Eu não sei lidar com você?
Entendo, sou burra mesmo, mas isso eu sempre te disse: Olha, pode chegar mas
cuidado comigo eu não sou muito experiente, nem muito inteligente, nem muito
disposta, nem tenho facilidade de aprender. Será essa a sua didática?
Eu não quero ter medo de você. Não quero ser uma daquelas
pessoas que te conheceu e depois de um coice muito forte te odiou e te
desacreditou. Eu não quero. Eu queria que fosse mais fácil. Isso é o pedido que
sempre te fazem, né?! Eu sei...desculpa. Eu queria que você atingisse todo
mundo como você faz comigo, não nos castigos mas na importância. Não quero te
perder agora, porque sei que te tendo é ruim, mas não ter é passar por tudo de
novo depois. Não quero te perder porque te valorizo como o mais importante da
vida – da minha e dos outros. Não quero parar de acreditar que só há felicidade
realmente genuína com você, do seu lado, dentro de você. Não quero gastar a
minha história com você só com o ruim de te ter.
Me diz: vai ser sempre assim pra mim? É um castigo por todas
as vezes que te julguei, que te difamei, que convenci os outros a não
acreditarem em você? Castigos passam, não é? Os de mãe duram um mês e os seus? Um
ano? Está perto de acabar então?
Eu preciso que você diga pra mim, que você tenha a
maturidade que você me cobra e me encare. Porque to cansada do seu eloqüente silêncio.
Estou cansada de você ser indiferente enquanto eu me descabelo pra que você me
olhe.
Eu fugi sempre dessa conversa. Eu sempre fugi de mim.
Não me entenda mal, eu sou grata a você. Muito. Você me
achou quando eu pensava ser o oceano grande demais e eu só uma gotinha perdida.
Você pousou em mim feito patas de borboleta, levinhas, e ainda sim fez eu me
sentir inteira, completa, achada.
Não me entenda mal.
Eu não sei me
explicar e talvez essa carta chegue até você com todas as palavras deslidas,
desalinhadas, deformadas. Se isso acontecer pense no meu estado escrevendo-a.
Você me deformou pra se formar em
mim. Você me anoiteceu, me embrulhou, me cortou as asas.
Eu não as quero de volta, eu não preciso mais voar.
Eu não quero mais a liberdade de você, de não te sentir.
Eu quero te sentir completo.
Eu quero a infelicidade de ter e sendo assim, a felicidade
de ser.
Me perdoa os anos de difamação da sua capacidade, lembra que
você e Deus são as únicas forças capazes de fazer pedra dar flor.
Pare de inundar pra me matar, floresça completo em mim, por
favor.
Com toda a minha gratidão, admiração e humildade,
M.
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