Ipanema.


Acabo de sentir seu cheiro na rua. Não sei bem se realmente precisava desse gatilho pra me lembrar de nós ou se usei só pra escapar das armadilhas que criei pra te esquecer, mas o fato é que você me veio e me aconteceu forte como se tivesse sido ontem o nosso tudo. Me apaixonei de novo depois de você. Quis te dizer com a certeza que você riria e diria que tinha me avisado que nosso amor não seria pra sempre. Me pergunto o que significa durar porque veja, você durou pra mim; não como amor – concordo – mas como cheiro, presença, beijo, toque e pele e coxas. Tive vontade abraçar o estranho só pra me sentir mais próxima de você e me lembrei o tanto de vezes que estive perto, esbarrando, olhando, fugindo de onde você – e seu perfume – estivesse e ainda assim, me sentindo tão distante. Me lembrei porque nosso amor não durou e meu ódio nasceu e hoje o desprezo mútuo é um fato. Me lembrei porque desencontramos do que parecia tão certo. Ainda assim, apesar das conseqüências, do atual precipício que nossa história me colocou, não consigo me arrepender do que fomos. Com você caí e cair pra mim sempre foi vergonha, sempre foi fraqueza. Com você aprendi a me curvar pro amor e aos sofrimentos românticos. Você abriu meus olhos pras verdades dentro de mim, assoprou minhas incertezas e dúvidas, aquelas que fazem de mim pessimista e chorosa. Você leu minha poesia e abraçou minha melancolia. Esse cheiro de banho tomado, de limão fresco, de ventinho de verão, me deu vontade de te procurar e dizer que sinto saudade de você na minha vida. Não procurei. Sinto falta de uma você que eu inventei pra mim, que eu criei pra consolar minha estupidez de me apaixonar tão perdidamente e desesperadamente como fiz com você. Minha saudade não era a de quem te queria de volta, era a de quem reconhece o passado como lindo, mas que prefere não remexe - lo.
Então fica bem, fica aí, continue tomando sol com cuidado, tenta dormir cedo e pense em diminuir os cigarros, apesar de eles fazerem par perfeito e elegante com sua poesia, com sua surreal eloqüência e absurda inteligência, não gostaria nunca que seu cheiro – aquele que me fez te escrever depois de tanto tempo – fosse substituído por um outro tão artificial e pouco sedutor.
Um beijo de açúcar no seu nariz gelado,
Myrella Andrade

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