Do espelho.

O cheiro de cigarro permanecia em suas mãos. Seus olhos se dirigiam à porta de entrada. Nada. O que ele poderia fazer naquela situação? Voltar para casa e escrever? Não. Seria um atestado de derrota. Uma confirmação do que ele sempre soube, mas só pôde decretar agora: não nascera para amar. O problema, o grande problema, é que a consciência nunca estava limpa. Nunca estava leve. Permanecia sempre repleta de pensamentos, hipóteses, dúvidas, e alguma fumaça de cigarro. E se ele não tivesse feito o que fez? E se apenas escrevesse? Enquanto riscava o fósforo, voltou novamente o olhar para a porta de entrada. Um casal entrou de mãos dadas e sentou-se à sua frente. Estavam felizes. Pareciam felizes. Então pessoas felizes existem mesmo?
Nada. Entre o cigarro e a bebida, um vazio de tamanho infinito. Não bastasse tudo que havia acontecido, agora se encontrava imerso em clichês. Figuras de linguagem assombradas o perturbavam durante o sono. Detestava qualquer indireta. Não tinha mais paciência para ler as entrelinhas. Não tinha mais paciência para nada. Nada. Exatamente isso que entrava por aquela porta. Nada. Um nada que não o completava. Já teve tudo nas mãos e agora não havia mais nada. Nem de reclamar das entrelinhas ele tinha direito. Não havia entrelinhas. Nem as linhas da própria mão ele reconhecia. Não reconhecia sequer a sua própria figura. Estranhou que tal sentimento, de uma semana para outra, já se tornara familiar.
A banda começava a tocar as músicas dos Beatles enquanto chegavam outros casais. Moveu-se para o balcão ao fundo do bar, foi solicitado a liberar uma mesa para um casal que havia chegado. Uma mesa “a dois”. O fato de não estar a dois, e de talvez nunca mais estar a dois deveria arrepiá-lo por inteiro, mas seu semblante parecia o de alguém que rapidamente se acostumara a esta nova situação. Alargou a gravata e cheirou a gola do terno que até pouco tempo atrás parecia ter cheiro de recém comprado: cigarro.
O balcão nada mais era do que uma sequência de tábuas irregulares que começava na parede lateral próximo à entrada e percorria toda a margem do bar até chegar aos fundos, local onde os solitários precisavam ficar – para desocupar as mesas para os casais felizes – e os otimistas de meia-idade procuravam companhia fútil para as últimas horas da madrugada. Havia um espelho sobre este balcão, que também ocupava toda a parede dos fundos, criando uma desoladora sensação de que o local era duas vezes maior, como se isso fosse um ponto positivo. E como se pudesse enxergar através do espelho à sua frente a larga silhueta da sua consciência sentada ao seu lado com um copo na mão, acendeu outro cigarro. Estava bêbado. Bêbado, derrotado, e com a consciência pesada de um vazio sem tamanho. Não nascera para amar. Era isso. Tudo convergia para isso. Tudo já estava se encaminhando para isso há bastante tempo. Mas o pior, pior que tudo, pior do que o nada, pior do que os pensamentos, hipóteses, dúvidas e lembranças, pior do que a culpa e pior do que o casal estúpido e estupidamente feliz que estava à sua frente e que ele ainda não conseguira esquecer, o pior de tudo era que o cheiro de cigarro, esse sim, permanecia em suas mãos.
A banda tentava preencher o vazio do bar com as suas canções. Talvez fosse hora de voltar para casa e escrever. O tempo estava péssimo, como sempre acontece quando se está com o coração partido, como sempre acontece quando se está imerso em clichês. Já era dia, mas não havia sol. E aquele casal, o casal que havia entrado de mãos dadas, agora se preparava para sair. E continuavam felizes. Pareciam felizes. Então as pessoas felizes existem? Existem. E lá estavam saindo duas delas. Saíram sorridentes pela rua, e o tempo ruim não fez a menor diferença nas suas vidas. “É dia, meu amor, é dia”.
(Curiosa espécie essa, das pessoas felizes. Devem viver uma vida sem emoção. Sem consciência. Sem culpa.)
E a banda continuava tocando as músicas dos Beatles. Amanhecia. Do espelho, reflexos distorcidos de rostos cinematograficamente escondidos pela fumaça. De sorrisos irremediavelmente forçados pela noite. Ou pela bebida. Nas mesas, o silêncio se fazia presente, dentro de cada pessoa. E não só a música, mas todos os sons eram abafados por este silêncio. Era inevitável. Dentre moribundos, desistentes e pessoas felizes, a pintura se fez completa. Lá fora, o sol não ameaçava dar as caras. Esqueceu-se o valor das palavras. Por que escrever, afinal de contas? Tudo é tão trivial. Tudo é tão incompleto. E todos aqueles olhares, e todos aqueles sorrisos, toda aquela fumaça, apenas uma bela e triste representação da felicidade.
E eu, que me julgava tão competente em criar representações, enxergo-me neste bar, perdido. O espelho em minha frente reflete um clichê humano, uma imagem que não vale mais que mil palavras. A imagem de um homem que não vale nada. Uma personagem de uma tragédia tão banal que não merece sequer a catarse da audiência. Era inevitável.
Talvez devesse voltar, tirar esse cheiro de cigarro das mãos, essa roupa extremamente desconfortável, e escrever. Por que antes era fácil. Parecia fácil. Eu parecia feliz. Mas escrever não me alegra mais. Nem escrever, nem a bebida, nem o cigarro. E principalmente, não me alegram mais as músicas dos Beatles. Lembram você.
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