Louco querer.

Ela tem aqueles pêlos indisciplinados no pescoço, que hora seguem um rumo e que, no meio do caminho, sem explicação, mudam de direção. Ela tem um vão nas costas, que nunca demonstrei claramente, com palavras ditas, o quanto amo. O seu vão nas costas, que parece ter sido feito unicamente pro meu encaixe. Porque línguas passageiras se encaixam, corpos sem direção no sexo se encaixam, até no dormir pessoas aleatórias se encaixam, mas o vão das costas, esse é feito só pra mim. Aqui dessa janela eu vejo muitas estrelas e o céu me lembra aquela noite em que eu não me preocupava e o fato de suas declarações me provocarem apenas risos despretensiosos me entristece porque hoje sinto sua falta. Não dos beijos, ou dos calafrios de prazer ou das coxas mais atraentes que eu já vi, mas dos pêlos por de trás do pescoço, do seu queixo apoiado no meu ombro quando num abraço maluco minhas costas encostavam-se à sua barriga. Não sinto falta de corpo, nem de cheiro, nem ao menos de gosto, ainda que esses fossem incrivelmente bons, mas a hora que eu quiser, realmente quiser, eu encontro alguém igual ou melhor – Deus, por favor, melhor! – mas sinto de você sendo você, sendo bela embora não fosse bonita e tendo nariz de pugilista e uma testa acentuada e dentes pequenos, mas sorriso imenso. Sinto falta de celebrar o ócio embora ele fosse mais agradável pra mim do que pra você. Porque na minha vida procrastinação não é pecado, não é gastar a vida, não é perder tempo, é privilégio e escolha e sinônimo de felicidade. E descansar no seu vão nas costas, com a pressão dos meus seios-navalha, era descansar os meus pesos e vazios, era tranqüilidade intranqüila, felicidade infeliz. Não falo de amor verdadeiro ou maior que os outros, porque isso tenho certeza que não somos, falo de doce deleite da presença e breve esquecimento de calor ou frio, de horários e compromissos, esquecer pra que existem tantas outras coisas já que meu corpo se encaixa no vão das suas costas. Encontrar não é casualidade e procurar não é não saber aonde ir, eu sei, mas prefiro o conforto de onde conheço porque segurança afaga a minha vaidade, tanto quanto a falta de rédeas do amor adoece a sua. Nossos encontros são escritos pelo destino e ele propõe casualidade. Nado contra corrente, não pra exorcizar, mas para não ter que fazê-lo, porque entre sofrer mais pela imaginação do que pela real, e infeliz, pequenez dos verdadeiros fatos é melhor que admitir o Nada, que você me obrigou a alargar, depois que se foi. Não te culpo não me entenda mal, quis começar dizendo sobre necessidades e o que é necessário, mas sou prolixa, você sabe... Queria falar sobre respiração e a necessidade dos pulmões pelo ar. Respirar é necessidade, ter alguém que tire seu fôlego é necessário. E você sempre tirou o meu.
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Enrique Coimbra disse...

Nossa, que domínio descritivo, heim? Conclusivo em pensamentos abstratos e abertos, fechados em si. Adorei.

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